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Notícias > Nacional - Atualizado em 29/04/2018 - 16:17:26

'Sobreviventes enlutados': familiares de pessoas que tiraram a própria vida
Redação

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uem enfrenta o suicídio de um parente ou amigo vai "sobreviver em luto". O impacto da perda é reconhecidamente tão grande que profissionais encarregados de prestar apoio psicológico chamam essas vítimas de "sobreviventes enlutados". E para se manter de pé e superar o sentimento de culpa, cada um deles busca seu próprio caminho e alguns apostam no apoio mútuo, como no caso de Roberto Maia, de 55 anos.

Quando soube que sua filha Jéssica Heloísa decidiu tirar a própria vida aos 14 anos, Maia ficou sem reação. “Não ri, não chorei, não falei. Fiquei catatônico e minha mulher [segunda esposa de Maia] foi quem pegou o telefone. Parecia que eu tinha saído do meu corpo”, relembra ele sobre sua reação ao fato, ocorrido há 10 anos.

Maia passou anos tentando lidar com a dor, até que encontrou no voluntariado uma forma de aliviar o que sentia. “Todo mundo busca a felicidade, mas ninguém ensina a gente sobre a morte”, conta.

Depois de entender como lidar com o suicídio da filha de 14 anos, Roberto Maia se tornou voluntário no Centro de Valorização da Vida (Foto: Marlon Costa/Pernambuco Press) Depois de entender como lidar com o suicídio da filha de 14 anos, Roberto Maia se tornou voluntário no Centro de Valorização da Vida (Foto: Marlon Costa/Pernambuco Press)

Depois de entender como lidar com o suicídio da filha de 14 anos, Roberto Maia se tornou voluntário no Centro de Valorização da Vida (Foto: Marlon Costa/Pernambuco Press)

Maia concluiu na terça (24) o curso de voluntariado do Centro de Valorização à Vida (CVV), no Recife (PE), uma entidade que oferece apoio gratuito de prevenção ao suicídio via telefone, e-mail, chats ou pessoalmente.

“Decidi ser voluntário para ouvir outras pessoas que estariam dispostas a cometer suicído


Após a morte de Matheus, toda a família passou por tratamento psicológico e psiquiátrico. "Tomo remédio para conseguir fazer as coisas do dia a dia", diz Rosangela.

"É um trauma muito difícil de superar. No começo eu me culpava, me perguntava &39;por que não insisti mais em conversar com ele?&39; ou &39;Por que não fiquei mais com ele enquanto ele estava triste?&39;. Mas depois a gente percebe que, no fim das contas, essa é uma decisão muito pessoal. Então a minha forma de conviver com isso é ser amparada por outras mães que perderam seus filhos e ampará-las também."

Sinais não são claros

Maia, Terezinha, Rosângela e Moreira contam que buscaram sinais que pudessem tê-los alertado sobre o estado dos filhos, mas nem sempre eles são claros.

Higor, por exemplo, começou a se afastar do convívio familiar e a passar mais tempo online, conta Moreira, que, em respeito à privacidade do jovem, permitiu o isolamento. Ele diz que sempre quis dar a melhor educação para o filho, como acesso à tecnologia e jogos em rede.

Segundo o pai, o jovem – descrito como sorridente, alegre e carismático – nunca deu sinais de que havia algum problema. A polícia investiga se grupos de incentivo ao suicídio no WhatsApp influenciaram a decisão de Higor.

Para a família de Matheus, pensamentos suicidas nunca foram compartilhados com a família, mas o jovem pediu para ir a um psicólogo depois de um rompimento de namoro. Depois, porém, acabou desistindo da ajuda.

"Eu marquei a primeira vez, mas ele teve um dia ótimo com os amigos de infância em casa e decidimos prorrogar a consulta. Na semana seguinte fomos ao psicólogo, mas ele não quis se consultar, na outra ele se matou. Foi tudo muito rápido, eu não tive tempo de entender o que estava se passando e quão profundo era aquilo tudo para ele", conta a mãe de Matheus, Rosângela de Fátima.

Acompanhamento de perto

No caso de Marina, a jovem apresentou mudanças de humor desde os 16 anos. A princípio, a irritabilidade foi associdade pela mãe à Tensão Pré-Menstrual. Outros sinais, como a insatisfação com o próprio corpo, foram atribuídos à adolescência.

"A gente fica com a impressão de que depressão é ficar deitado na cama. Ela fazia tudo o que sempre fazia, mas mudou o humor. Ficou agressiva, chata, e a gente achava que era coisa da adolescência. Tudo isso contribuiu para o final", disse Terezinha.

Quando a jovem passou a ter crises, foi levada a psiquiatras. Mas quando começou a se cortar, os pais a levavam ao Pronto-Socorro. Em um desses dias, ela foi atendida por uma dermatologista que prescreveu um remédio manipulado, misturando relaxante muscular e um antidepressivo. "Dois dias depois ela foi internada no hospital psiquiátrico, o médico suspendeu o medicamento" na mesma hora, conta a mãe.

O último psiquiatra que atendeu a adolescente afirmou que suspeitava que ela tinha a Síndrome de Borderline, um transtorno de personalidade com mudanças súbitas de humor. Mas não houve tempo de chegar a um diagnóstico definitivo.

Enquanto isso, ela fazia acompanhamento com dois psicólogos, tomava antidepressivos controlados, que a mãe administrava e deixava fora do acesso da filha. Após as sessões de terapia, ela chegava em casa melhor, comia melhor, dormia melhor. E também dava sinais de que pensava no próprio futuro. Estava estudando francês por conta própria, falava sobre planos para o carnaval que se aproximava e, dias antes de se matar, participou de um processo seletivo para um estágio.

 

Para a mãe, a filha sofria de depressão, mas dava indícios de que estava em um processo ascendente: a melhora parecia "questão de tempo". Por isso ela se surpreendeu ao descobrir que a filha tinha usado a única hora em que conseguiu ficar a sós para levar a cabo o plano de tirar a própria vida.

 

 




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